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Como um velho perdeu sua verruga!!!

Há muito tempo atrás um velhinho morava com sua esposa perto de uma floresta. Na juventude ele fora um belo rapaz, mas à medida que envelhecia, uma feia verruga cresceu-lhe na face, ficando, com a idade, cada vez maior. Durante anos, recorreu a médicos e magos e experimentou pós e poções, mas nada adiantou. Por fim resignou-se com a verruga e tentava mesmo brincar a respeito.

Um dia, o velho precisou de lenha para o fogo; foi então para as montanhas e cortou algumas achas. Fazia um dia fresco de outono e ele se sentia tão feliz que nem viu as nuvens se adensarem. Quando caíram as primeiras gotas, correu a procurar abrigo. Encontrou uma árvore oca e lá se escondeu, no extao momento em que irrompeu a tempestade. Trovões sacudiam as montanhas e raios cintilavam ao seu redor; ele, porém, estava seco e seguro. Depois de muitas horas, a tempestada amainou e o velho saiu de seu refúgio. Ouviu vozes à distância e pensou que seus vizinhos tinham vindo à sua procura. Mas quando viu do que se tratava, pasmou horrorizado – uma horda de gnomos e demônios se aproximava!

Mais que depressa, volou para seu esconderijo na árvore, tremendo de medo. Os demônios chegaram e um dos gnomos – o mais horrendo de todos e obviamente o chefe – dirigiu-se ao seu bando, dizendo com um gesto:

– Vamos dar uma festa aqui.

Então o rei-demônio acomodou-se de costas para o velho, na frente da árvore oca. O pobre homem quase desmaiou de medo.

Os demônios organizaram rapidamente um piquenique e começaram a cantar. O velho observava atônito – nunca vira nada semelhante. Mas quando os demônios começaram a dançar, não pôde conter o riso. Eram desajeitados e deselegantes, e todos pareciam ridículos, dando coices para todo lado e caindo. Finalmente, o rei dos demônios com um gesto ordenou aos dançarinos que parassem.

– Vocês são ruins demais! – disse, se lastimando. – Não existe ninguém aqui que saiba dançar bem?

Ora, o velho adorava dançar e sabia dançar muito bem. – Eu poderia ensinar-lhe uns passos – pensou consigo mesmo, mas não ousava revelar sua presença, temendo que os demônios o matassem. O rei-demônio tornou a perguntar se alguém sabia dançar e o velho continuava dividido entre seu amor pela dança e seu medo dos demônios. O rei-demônio perguntou uma terceira vez e o velho mandou seus receios às favas.

Saiu da árvore e curvou-se perante o chefe dos demônios.

– Eu sei dançar, meu senhor – disse e começou a fazê-lo.

Os demônios ficaram escandalizados por terem um homem em seu meio, mas, bem logo, admiraram a arte do velho. Começaram a marcar o ritmo com seus cascos, acompanhando a música e alguns se juntaram ao velho. Por sua vez, o velho sabia que sua vida dependia de ele dançar bem, de forma que pôs toda sua alma e todo seu coração em seus movimentos e divertiu-se, realmente. Quando parou, o rei-demônio aplaudiu e convidou-o a sentar-se ao seu lado, oferecendo-lhe um copo de vinho.

– Você precisa voltar amanhã para dançar para nós – o rei-demônio disse.

– Gostaria muito de vir – respondeu o velho.

Um dos conselheiros do rei admoestou-o. – Não se ode confiar nos homens. Precisamos ficar com algo que nos dê certeza de que ele vai voltar. – Infelizmente, o velho nada trazia de valor consigo.

– Bem, então – o rei-demônio disse – vou ficar com isto como penhor – e, estedendo a mão, agarrou a verruga do velho e arrancou-a com a facilidade de quem arranca um pessêgo maduro.

– Trate de voltar amanhã – ordenou, e todos os gnomos desapareceram.

O velho mal podia acreditar no que acontecera. Passou a mão pelo rosto e percebeu o quão suave – e simétrico! – estava. Ficou tão feliz, que foi para casa pulando, cantando – e dançando – durante todo o trajeto. A esposa, ao vê-lo livre da verruga, mostrou-se eufórica e ambos celebravam sua boa sorte.

Ora, o velho tinha um vizinho malvado e vaidoso que também tinha uma verruga e que nunca se cansara de procurar um tratamento para ela. Quando soube da celebração, foi espiar e ficou perplexo ao ver que a verruga do velho havia sumido. este homem invejosos imediatamente perguntou o que acontecera e o velho lhe contou a história dos demônios. O vizinho, então, insistiu para ir vê-los, no dia seguinte, em lugar do velho.

No dia seguinte, pois, o vizinho vaidoso rumou para as montanhas e encontrou a árvore oca, exatamente como o velho lhe dissera. E, sem sombra de dúvida, ao anoitecer, o bando de demônios apareceu.

– Onde está o velho que ia dançar para nós? – o rei-demônio perguntou. O mau vizinho rastejou para fora da árvore, tremendo de pavor. – Aqui estou! – disse e começou a dançar. Ele, no entanto, nunca havia aprendido a dançar; considerava a dança aviltante à sua dignidade de forma que apenas pulava de um lado para outro, agitando os braços. Ele achava que os demônios não iriam notar a diferença, porém o rei ficou ofendido.

– Mas que coisa horrível! – o rei-gnomo exclamou. – Você não está dançando como ontem! – O rei não atinara que estava tratando coim outra pessoa porque, a seu ver, todos os humanos eram iguais. – Não dá para agüentar! – o rei-demônio gritou, afinal. Vasculhou o bolo e encontrou a verruga.

– Olhe, devolvo-lhe o penhor.

Dizendo isso, atirou a verruga no homem vaidoso e esta grudou-lhe no rosto e não havia dúvida: tinha duas verrugas, uma em cada face! Esgueirou-se para dentro de casa bem mais trade da noite, e ninguém viu sua cara nunca mais porque, desse dia em diante, passou a usar um chapéu de abas largas, bem enfiado na cabeça.

Quanto ao velho que perdeu sua verruga, ele viveu ainda muito tempo e dançava quando se sentia feliz. O que, na verdade, acontecia quase sempre!